• Quarta, 17 de Junho de 2020

O modelo sui generis de Bolsonaro (II)

(*Conclusão da postagem anterior)

As duas últimas publicações deste site trataram das falas e atitudes autoritárias do presidente Bolsonaro e das contraofensivas do STF e Congresso que, por ora, parecem ter levado Bolsonaro ao modo calmaria.

De toda sorte, o curioso reside no aspecto sui generis de Bolsonaro, cujo comportamento não se viu em nenhum outro momento político do Brasil. Deixando de lado a Revolução de 1930, de Vargas – que exigiria recuo a passado muito distante, de moldes políticos bem diferentes dos atuais e na conflituosa sucessão de Washington Luís – em nenhuma outra fase se viu algo parecido.

Vejamos: Jânio Quadros, político de direita, venceu as eleições com a maior votação desde então – quase 6 milhões de votos – e de forma surpreendente renunciou sete meses depois, em agosto de 1961, por razões que nunca ficaram claras.

Segundo ele, não era possível governar com ‘aquele Congresso’. Para Lacerda, que o apoiara na campanha, Jânio renunciara como forma de comover o povo e dar um golpe. Não funcionou. Para a História, a renúncia foi um ato exótico de um político excêntrico. E ponto.

João Goulart, de esquerda, depois de muita discussão, assumiu sob fortes trovoadas. Mas em 1964 – possivelmente não por sua vontade, mas pressionados por extremistas que garantiram sua posse –, agitou o País, anunciou reformas radicais e supostamente estaria caminhando para implantar uma república sindicalista.

Enfim, Jango cometera o erro de agitar o país do qual era presidente. E a quem está no topo interessa ordem e calmaria – não alvoroço.

Por isso as atitudes de Bolsonaro são incompreensíveis: teve uma eleição legítima, inquestionável e assumiu o País em situação razoavelmente controlada. Mas insiste em elogiar a ditadura militar, nas falas autoritárias e de intolerância, no uso de palavras xulas, nas ofensas gratuitas e no tom agressivo. Enfim, agride a liturgia do cargo sem a menor cerimônia.

Logo, cabe perguntar: ao afrontar as instituições como tem feito – abrindo fogo pesado contra os que defendem a democracia – deseja o quê? Dar um golpe? Mas com que objetivo, se já é o presidente?

Para implantar um regime autoritário e virar ditador, precisa do apoio das Forças Armadas o que, ao que parece, não tem. (Ao menos para tal finalidade). Logo, o único caminho plausível é o do recuo.

Por tudo isso, cabe inferir que construiu uma narrativa sui-generis, mas que parece não vai dar em nada.